sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Era um domingo. O dia estava um brilho só, os passarinhos logo começaram a cantarolar e eu a ouvir. Durante a madrugada meu sono havia sido abduzido por um grande anseio, eu esperava cada minuto para que aquele, exatamente aquele domingo chegasse. Chegou depois de muito demorar e o grande motivo da minha inquietação era o fato de que ganharia meu primeiro cãozinho. Eu me lembro que desde o dia em que minha mãe se convenceu, durante mais ou menos um mês íamos visita-lo todos os fins de semana até ele estar pronto para ser desmamado. Eu tinha oito anos e o meu mundo a partir daquele domingo ganhava um colorido com muito mais brilho e contraste. Uma recepção muito calorosa estava a espera dele, inclusive meu querido tio Ronaldo (em memória) foi dirigindo o carro com meus quatro primos. E logo chegamos a casa onde estavam todos os filhotinhos, a minha mãe preferia um machinho, eu lembro de pegar dois deles no colo e escolher o que tinha o nariz completamente rosa. Eu acreditei naquele momento que não havia sido eu racionalmente que o havia escolhido, foi o meu coração. Desde a primeira vez que segurei ele no colo eu senti uma coisa esquisita, era amor de mais para ser real. Era um sorriso estampado no rosto de canto a canto, e os olhos saltitavam de tanto brilhar. Eu olhava curiosa para ele e observava cada detalhe, era tudo perfeito e exageradamente pequeno, parecia que ia quebrar. Era lindo, o pelo parecia pluma branca e os olhinhos dele eram redondos e muito vivos. Então voltamos todos, coloquei ele numa bolsa que estava no meio do enxoval que havia feito para ele. No caminho de casa fui pegá-lo no colo e ele estava completamente encharcado de xixi, de início chegava a ser engraçado, a minha mãe se irritou quando o recebeu naquele estado e na mesma hora que chegou já foi logo tomar banho no pet shop, ela não queria cachorro fedido em casa. Eu estava no mundo de Bob, no caso ele ainda não possuía nome mas era no mundo dele que eu estava, vibrando de felicidade. A rotina no início era difícil, ele chorava por tudo, fazia xixi por todos os lados e ainda veio com um rabinho só o toco, às vezes ele se machucava e dava muita dó. Naquela época todo mundo fazia isso com eles, eles já vinham assim, era feio ter rabo grande. Meus irmãos não moravam mais em casa e eu acabava ficando bem sozinha por conta da diferença de idade, então ele virou meu grude. O chamei : “Luppy” e tentei escrever sobre ele algumas vezes na infância e o livro tinha até um tema: as aventuras de um cão que tinha o mundo nas mãos- uma história fictícia. Ele dormia por horas e horas, sempre numa caminha vermelha que ficava sempre no meu quarto, mas só enquanto ele ainda era um filhote. Ele crescia um pouco todos os dias e ficava cada vez mais esperto, corria pela casa e já nem chorava na hora de dormir, começava a criar independência, era lindo ver aquela evolução. Eu mesmo muito nova, não perdia nada. Levava ele debaixo do braço para todos os lugares, inclusive para a casa da tia Cida e do tio  Ronaldo que tinham que me aguentar todos os dias batendo na porta da casa deles com o luppy de lado. Em uma dessas vezes que não foram poucas, eu o deixei em cima da cama dormindo e quando voltei tinha um enorme cocô em cima da cama do quarto de visitas. Era muito difícil educar aquela coisa e ninguém me ajudava. Meu pai trabalhava na firma e só chegava a noite, já a minha mãe passava o dia resolvendo coisas fora de casa e não tinha tempo nem para mim. Hoje, quase 15 anos depois, o Luppy continua fazendo xixi pela casa toda. Ele anda torto e arrasta uma perna, tem problemas nos rins e osteoporose, os ossinhos dele estão virando pó, além de não enxergar direito e nem ouvir. Mas mesmo no meio de tanta mudança, é como se nada tivesse mudado. A lucidez é a mesma, e o amor também. Passo mais ou menos seis meses sem vê-lo, mas todas as vezes que o vejo, ele me reconhece da mesma forma e mesmo com muita dor, ele dá um jeito de mesmo torto subir as escadas pra dormir no meu quarto. Ele ainda é bravo e rabugento, mas ele foi o meu grande e fiel amor infantil, e não teve amigo imaginário pra barrar, muito menos amigo real... ele é realmente o meu eterno melhor amigo.

com amor, Milena.

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